| Alquimia no século XVII | ||
|
| Textos Técnicos - A Historia da Quimica na Joalheria |
|
A alquimia e a iatroquímica atingiram nível popular com as preleções públicas de
Jean Béguin, na França, onde publicou seu livro Tyrocinium Chymicum, em 1610, destinado a principiantes. Em 1615, numa edição ampliada, descreve a reação entre o sulfeto de antimônio e o sulfato de mercúrio. Outro texto químico publicado na França é o Cours de Chymie de Nicholas Lemery que também era um grande divulgador profissinal da ciência que se delineava. A alquimia, no que pese ao seu conceito público, passou a ser mais associada à fraudes enquanto que a Chymica estava relacionado com preparação de elixires, remédios, extratos e sais usados em medicina. Em suma, a iatroquímica passou a ter um status de atividade independente. No começo dêste século a tendência de encarar a alquimia pelo lado prático teve continuidade. Livabius publica em 1611 o livro Syntagma onde descreve a preparação do ácido clorídrico (spiritus salis), do tetracloreto de estanho (spiritus fumans Libavii), do ácido sulfúrico e da água régia. A tecnologia química já enseja a produção industrial de produtos iatroquímicos. Johann Rudolph Glauber (1604-1670), um químico auto-didata muito viajado, com interesse em metalurgia, iatroquímica, e química em geral, dedica-se à parte de equipamentos e processos industriais. Na Holanda, em Amsterdam, publica em 1648 o livro Furni Novi Philosophici ou Novos fornos filosóficos com a descrição de sistemas e processos usados em fornos. Um outro texto, de 1654, o Pharmacopeia Spagyrica, publicado na Alemanha, é dedicado à produção de produtos iatroquímicos. O seu interêsse por sais leva-o a experimentar um número grande de reações envolvendo ácidos minerais, como o sulfúrico e o clorídrico, metais e óxidos. Chega a conclusão de que os sais possuem uma parte derivada dos ácido e outra das terras do metal (isto é, óxido). Com sais neutros faz reações de dupla decomposição produzindo novos sais. (Não faz muito tempo, nas farmácias brasileiras, podia-se comprar o sal de Glauber, um sulfato de sódio, usado em medicina popular e atualmente usado, pelas suas propriedades, nos processos modernos de conservação de energia térmica.) Suas observações sôbre a compatibilidade de substâncias reagentes com os diversos metais ( uma substância "ama" ou odeia" um dado metal ) são precursoras do conceito de afinidade química desenvolvido posteriormente. Glauber também preparou muitos compostos orgânicos, como o benzeno, mas não tinha conhecimentos para desbravar esta terra incognita de compostos de carbono. Os primeiros farmaceuticos se estabelecem reforçando a prática iatroquímica, que se torna muito popular. Os alquimistas tradicionais sofrem agora a concorrência dos médicos e farmaceuticos cuja visão era de ordem mais utilitária e concreta. Assim o laboratório passou a ter importância vital e neste século surgem as primeiras idéias de grandes laboratórios integrados para o trabalho alquímico. Um destes laboratórios, imaginado por Livabius, é construido no final do século. Em 1617, Angelo Sala (1576-1637), um médico-químico, descreve pela primeira vez a preparação do "vitríolo de cobre", isto é, do CuSO4 .5H 2O, a partir de quantidades pesadas de acido sulfúrico, cobre metálico e água e depois, por decomposição do produto, recupera os ingredientes básicos. Jan Baptist Van Helmont (1577-1644), um médico belga seguidor de Paracelso, além da parte prática, onde usava sistemáticamente a balança, preocupava-se com a parte mística e filosófica da alquimia. Não aceitava a teoria aristotélica dos quatro elementos mas supunha que a água era fundamental para explicar a natureza. Estudou quantitativamente muitas transformações que envolviam a água. Por exemplo, acompanhou o crescimento de uma árvore durante longo período, 5 anos, pesando a terra e, no final, a árvore, chegando a conclusão que a água era um constituinte da árvore porque o pêso da terra continuou o mesmo. Fez transformações quantitativas com sistemas inorgânicos envolvendo água e soluções com o intuito de confirmar suas suposições. Entretanto, não chegou a formular um princípio geral de constância da massa nas transformações químicas, sendo isto feito sòmente nos séculos seguintes. A prática de pesar os reagentes, no entanto, se espalhou e passou a integrar o procedimento alquímico experimental. Também estudou muito as transformações que produzem gases como a carbonização de matéria orgânica e a fermentação, a queima do enxôfre, a ação de ácidos sôbre metais e carbonatos e outras similares. Nestas transformações produzia dióxido de carbono, dióxido de enxôfre, óxidos de nitrogênio, hidrogênio, metano ou misturas destes, respectivamente. Van Helmont foi o responsável pelo nome gas para estas substâncias. Achava que pertenciam a uma classe que denominava de spiritus sylvestris ou espírito indomável, difícil de serem controladas, pois muitas vezes destruiam seus equipamentos. Acreditava que não podiam ser contidas em um recipiente, não podiam ser reduzidas (condensadas) a uma fase visível, como o vapor de água, e que eram constituintes naturais dos corpos. Fazia distinção entre ar, vapor e os gases que estudava. Considerava que as diferenças que apresentavam eram devido ao arranjo diferente do enxôfre, do mercúrio e do sal, os componentes básicos dos corpos, na alquimia desta época. Pelos seus estudos dos gases van Helmont é considerado o fundador da Química pneumática ou estudo dos gases. A partir de van Helmont os alquímistas passaram a fazer experiências com gases nos seus estudos. Esta prática foi precursora de grandes avanços obtidos por outros estudiosos no século seguinte. Van Helmont destacou-se, também, no estudo da iatroquímica, seguindo as idéias de Paracelso. Este achava que o comportamento do corpo humano é devido à presença de um princípio inteligente, denominado Archeus, que se manifestava, por exemplo, na digestão. Van Helmont generalizou este conceito estendendo-o para qualquer atividade do ser vivo e supôs que as reações nos seres vivos eram devido a ação de "fermentos". Esta idéia, que permaneceu até o século XIX, é uma precursora longínqua das enzimas modernas. Dedicou-se, também, ao estudo prático dos fluidos do corpo humano. Seus conceitos teóricos, embora carregados de manifestações místicas, influiram nas idéias que mais tarde levaram ao estabelecimento da Bioquímica. A iatroquímica, neste século, floresceu seguindo as linhas gerais de Paracelso, mas com a extensão de alguns de seus conceitos. Na prática a iatroquímica passou a ser uma área experimental de estudos cultivada pelos farmaceuticos que se dedicavam a extrair de plantas e produtos animais os elixires ou princípios ativos que os médicos usavam. A destilação, técnica utilizada, permitia separar os produtos iniciais em seus "componentes", normalmente um resíduo sólido ou líquido viscoso, gases inflamaveis ou vapores condensáveis. A teoria dos tres elementos de Paracelso, mercúrio, enxôfre e sal, nem sempre representava adequadamente os fatos observados pelos farmaceuticos. Foram eles levados a estabelecer mais dois elementos adicionais, flegma e terra, considerando-os passivos em contraposição aos tres primeiros que eram considerados ativos. Desta forma os iatroquimicos introduziram o conceito de cinco elementos que embora lhes racionalizasse os resultados experimentais não logrou consolidar-se na alquimia em geral. Esta tentativa acompanhava a tendência dos alquimistas deste século em ter suas próprias teorias interpretativas dos fatos experimentais. Como tais eram conceitualmente limitadas e efêmeras embora se afastassem das idéias clássicas alquímicas existentes desde a época de Alexandria. As idéias atomísticas dos gregos persistiam e começaram gradativamente a ser consideradas como alternativa de explicação dos fenômenos observados. Assim, muitas observações indicavam que havia nas transformações químicas uma parte que permanecia inalterada, não sujeita à mudanças. Na deposição do cobre sôbre ferro, que obtinham usando uma solução de sulfato de cobre, o cobre depositado seria o mesmo existente em solução sob forma de partículas. Muitos estudiosos, que não aceitavam totalmente as idéias Aristotélicas, usavam estas idéias alternativas, raciocinando em termos atomísticos ou procurando racionalizar suas observações com teorias semelhantes. Daniel Sennert (1572-1637), por exemplo, dava às partículas o nome de minima e explicava as condensações, distilações e outras transformações por meio delas. Jungius (1587-1637) ou Joaquim Junge, da mesma forma que muitos iatroquímicos, considerava muitos fenômenos como transformações envolvendo troca de átomos. As idéias atomísticas eram também francamente utilizadas pelos físicos como Galileo (Galileu Galilei) (1564-1642), que estudava o movimento dos corpos. Tambem por Francis Bacon (1561-1626), que atribuía ao movimento das partículas, que formavam os corpos, a existência do calor ou aquecimento dos mesmos. Estas idéias atomísticas passaram cada vez mais a ser utilizadas na explicação dos fenômenos. Desta forma encontraram no estudo dos gases um campo fecundo de experimentação e de confirmações. Uma teoria mecânica para explicar a natureza começou a ser formulada. Pierre Cassendi (1596-1650), um grande divulgador que conhecia bem as obras dos gregos atomístas, em particular as de Epicuro, contribuiu muito para divulgar esta idéia. A filosofia de Descartes (Renée Descartes) ( ), de que a verdade só poderia ser obtida por um processo detalhado de análise e que não poderia ser considerada a não ser que fôsse provada, iniciou um processo novo de estudar a natureza. A influência desta tendência nos estudos da química foi profunda e começou a tomar forma, nas universidades européias, em meados do século. As idéias alquímicas de misticismo e de forças ocultas, como responsáveis pelos fenômenos e transformações, começaram a ser superadas pelo modêlo cartesiano, baseado na observação, na experiência e na descrição matemática dos fenômenos observados. Em 1643 Evangelista Torricelli (1608-1647) inventou o barômetro e provou experimentalmente a existência do vácuo. Otto von Guericke(1602-1686), prefeito da cidade de Magdeburgo, Alemanha, inventou a bomba de ar ou de vácuo que logo passou a ser usada por Robert Boyle , que usava um modêlo construido por Robert Hooke, e John Mayow, na universidade de Oxford, na Inglaterra. Hooke, que era asssitente de Boyle, mais tarde tornou-se um grande cientista da época destacando-se no estudo da Física e competindo com Isaac Newton em muitas descobertas. Robert Boyle ( 1627-1691 ) passou a usar bombas de ar nos seus experimentos e em 1660 publicou o livro New Experiments Physico-mechanical, Touching the Spring of the Air and Its Effects ou Novas Experiências Físico-mecânicas sôbre a elasticidade do ar e seus efeitos. Ao longo dos anos descobriu alguns fenômenos físicos, como a ausência de propagação do som no vácuo, e no estudo do ar o fato de que o volume de um gas é inversamente proporcional à pressão aplicada quando a temperatura é mantida constante. Esta lei, mas tarde redescoberta na França por Mariotte, é conhecida como "lei de Boyle-Mariotte" para os gases. Na química estudou o aumento do pêso dos metais na calcinação e a necessidade de ar na combustão e na sustentação da vida. Empreendeu tambem estudos sistemáticos de reações de ácidos e bases e o uso de extrato de plantas como sinalisadores de transformações químicas pela alteração da côr (indicadores). Dedicou-se, também, ao estudo do fósforo, uma substância já conhecida,e sua preparação e propriedades. Boyle era um grande experimentador que procurava realizar seus estudos de forma sistemática e rigorosa. Dedicou-se ao estudo da combustão cuja ocurrência considerava-se nesta época estar ligada à presença no ar de um espírito vital encontrado no natrão, que era usado na preparação de pólvora e responsável por sua ação. Em 1661 escreveu um livro de natureza didádica, com personagens que dialogavam, chamado The Sceptical Chymist ou O Químico não Crédulo. Nele Boyle ataca a teoria dos quatro elementos de Aristóteles, e a dos tres elementos de Paracelso, levando-as à rejeição por um interlocutor (êle próprio) , um químico que não se convenceu na discussão havida. Neste livro deixa entrever uma opinião não favorável à transmutação dos elementos, como por exemplo, a do mercúrio em ouro. Além disto tinha um conceito de elementos como sendo substâncias puras e simples que entravam na composição dos corpos, em contraposição à idéia de Aristóteles de que todos corpos são constituidos dos mesmos quatro elementos misturados em proporções diversas. Apesar de sua concepção correta Boyle nunca chegou a formular uma teoria sôbre o assunto. Sua concepção corpuscular da matéria aliada à uma interpretação puramente mecânica das transformações químicas, em que o movimento das partes era considerado fundamental, representou uma nova maneira de considerar os fenômenos químicos. Como consequência o impacto de suas idéias nos químicos de sua época e nos séculos posteriores foi considerável. Robert Hooke (1635-1703), assistente de Boyle, compartilhava de suas idéias e considerava que os gases eram constituidos de uma mistura de partículas diferentes, entre as quais um tipo responsável pela combustão e outro que não se alterava com as reações químicas e responsável pela elasticidade observada. Hooke era um cientista polivalente: inventor prolífico, era físico, astrônomo, químico, geômetra, arquiteto, biólogo, tendo atuado criativamente em todos estes campos e também na música. Seus conceitos estão expressos no seu livro Micrographia, publicado em 1665, onde indica que um componente do ar seria o responsável pela combustão. Esta também era a idéia de John Mayow (1641-1679), médico e cientista participante do grupo de Oxford, que aperfeiçoou as experiências pneumáticas de Boyle, mostrando experimentalmente que só parte do ar, que tradicionalmente era considerado uma substância única, tomava parte na combustão ou na respiração o que indicava possuir mais de um componente. Mayow considerava a parte envolvida na combustão como partículas que seriam responsáveis pelo aumento de pêso do metal e chamou-as de nitro-aerial. Posteriormente passou a atribuir muitos outros fenômenos - não ligados à combustão - à presenca de partículas de nitro-aerial. Outro cientista de destaque cujas atividades na química foram reveladas recentemente é Isaac Newton (1642-1727), matemático e físico, fundador da Mecânica, inovador da Optica, inventor do cálculo diferencial e descobridor da ação gravitacional entre os corpos no universo. É considerado o fundador da Física como ciência. Newton passou grande parte de seu tempo fazendo experiências alquímicas buscando a transmutação dos elementos. Era muito versado na construção de fornos e nas artes de laboratório e conhecia as obras alquímicas clássicas. Newton concordava com as idéias de Boyle e interpretava as reações químicas em termos de atração entre as partículas dos reagentes, que eram aceleradas, e se chocavam produzindo calor, turbulência , vaporização, etc.. Uma idéia do conhecimento experimental que Newton tinha da química pode ser obtida na parte referente à perguntas (Pergunta número 30) da 2a. edição de seu livro Optics publicado em 1717. Neste período do século XVII a química, a física e a astronomia passaram a ser ciências independentes cultivadas por estudiosos que fundaram sociedades científicas tanto na Inglaterra como no continente europeu. Em 1662 a Royal Society é fundada em Londres por um grupo de cientistas entre os quais Boyle, Hooke, Newton e outros de renome. As reuniões para apresentação de resultados novos e os debates eram semanais e nelas os cientistas tinham a ocasião de apresentar suas idéias a seus pares e difundir o conhecimento. Os debates científicos e as diferenças de opinião entre Hooke e Newton ficaram famosos concorrendo para gerar um clima de disputa da prioridade de descobertas e acusações mútuas de apropriação de resultados. É certo que tal disputa retardou a publicação do livro Optics, de autoria de Newton, por mais de uma década. Na França, em 1666, é fundada a Académie des Sciences, em Paris. Estas sociedades e academias, que lembram as famosas academias gregas, estabeleceram um padrão de debate científico que é seguido hoje mundialmente. Também publicavam revistas e jornais com as novas descobertas e discussões científicas de seus membros. As idéias atomísticas passaram a dominar o cenário científico e levaram à interpretação, embora errôneas, de muitos fenômenos observados. Um exemplo é a do aumento do pêso de um metal quando aquecido em tubo fechado, atribuído por Boyle à ação de partículas de fogo. A explicação correta (oxidação) só surgiu mais tarde, no final do século XVIII, com Lavoisier, na sua teoria da combustão. As idéias místicas foram progressivamente deixadas de lado e abandonadas em favor de uma teoria puramente mecânica. O desenvolvimento da física e em particular o da mecânica de Newton muito contribui para esta mudança de perspectiva no estudo das transformações químicas. Apesar desta influência, no século XVII, nenhuma teoria química de natureza fundamental foi formulada pelos cientistas que perseguiam o novo paradigma do atomicismo. Muitos deles, principalmente os do continente europeu, fundamentalmente eram farmaceuticos que se contentavam com teorias restritas aos seus interêsses. |
